quarta-feira, 25 de julho de 2012

100 motivos para se orgulhar da ciência brasileira

Esse artigo é o maior que já publiquei nesse BLOG, encontrei no portal da Revista Superinteressante e achei muito informativo o conteúdo mostrando os grandes cientistas brasileiros que muitas vezes não são valorizados pelo povo brasileiro, e que dão mais valores aos cientistas estrangeiros. Então segue a lista desses grandes nomes, e eu dedico ao meu irmão Professor Flávio e ao meu colega Professor Wilker que são apaixonados por ciência.



Muito prazer. Queremos apresentar a você a elite da ciência brasileira: cem cientistas e instituições científicas fundamentais, do passado e do presente. Para comemorar a edição número 100 da SUPER — cem revistas dedicadas à aventura do conhecimento, desde a primeira, em outubro de 1987 —, decidimos homenagear esses brasileiros. São eles que carregam a lâmpada de Diógenes — a luz do conhecimento — com bom ou mau tempo. Você agora vai conhecê-los melhor. E se orgulhar deles.

Todo mundo sabe que não é fácil ser cientista no Brasil. Todo mundo sabe que falta dinheiro etc. Mas é incrível: os obstáculos estão aí para serem vencidos. Os cientistas brasileiros têm qualquer coisa de heróis. Além de talento e inteligência são homens de vontade de ferro.
Para listar o supertime que você vai ver nas próximas páginas, nós também precisamos de garra. Começamos consultando cientistas das mais diversas áreas. Eles nos mandaram listas dos melhores de sua disciplina. Confrontando as relações, consolidamos um conjunto de 160 nomes ilustres. Difícil, quase impossível, foi reduzir essa lista. Quando por fim chegamos aos cem, havíamos consultado 116 cientistas e mais bancos de dados, bibliotecas, jornais e revistas. Conversamos ou trocamos faxes com quase todos os escolhidos vivos, inclusive com o sociólogo que hoje é presidente da República e com o cardiologista que é ministro da Saúde. Uma trabalheira danada. Uma trabalheira em equipe: sete jornalistas e dois meses de pesquisa.
O resultado é esta seleção de cem homens, mulheres e instituições, distribuídos em treze disciplinas. Alguns desenvolvem trabalhos interdisciplinares mas figuram numa única disciplina apenas para efeito de simplificação.
Importante: esta não é nenhuma lista dos "cem mais", nem um ranking dos mais produtivos. É sobretudo uma homenagem aos cientistas brasileiros e a você, leitor, que nunca os viu reunidos. Você tem aqui mais do que uma lista: tem uma radiografia da ciência brasileira.
Uma radiografia, sim. Esta reportagem fez aflorar as opiniões dos gênios brasileiros sobre sua condição de pesquisadores. E revelou duas constantes. A primeira é a crítica à falta de apoio, de plano estratégico, de verbas e de investimento. A segunda, mais sutil, admite que a ciência nacional, à imagem da própria cultura brasileira, tem sido generosa em teorias e abstrações, porém é pouco prática. Seu desafio seria justamente avançar nas tecnologias aplicadas.
Acima das críticas, contudo, encontramos uma tremenda vontade de progredir. Com ou sem dinheiro. Os cientistas são como o país, que avança, apesar de tudo. Tem problemas, mas quer resolvê-los. E não pára de produzir.

A neurologista Nise da Silveira (AL, 1905) revolucionou o tratamento psiquiátrico de doentes mentais, recuperando suas expressões inconscientes por meio da pintura e da arte. Foi uma das primeiras a perceber que terapia ocupacional poderia virar método de tratamento. Em 1952, Nise fundou, no subúrbio de Engenho de Dentro, no Rio, o majestoso Museu das Imagens do Inconsciente, que hoje reúne 300 000 obras, todas realizadas por pacientes.
Além de bon vivant, Ivo Pitanguy (MG, 1926) é um gênio. Em qualquer canto do planeta onde exista faculdade de Medicina, suas técnicas de cirurgia plástica para mamas e abdome são obrigatórias. Seu livro Aesthetic Plastic Surgery of Head and Body (1981), tornou-se uma bíblia. Pitanguy criou o curso de pós-graduação em Cirurgia Plástica da PUC do Rio e já formou mais de 500 especialistas de várias nacionalidades.
Em 1968, Euryclides de Jesus Zerbini (SP, 1912 - 1993) tornou-se o sexto cardiologista do mundo a realizar um transplante de coração. Nos anos 40, nos Estados Unidos, aprendeu técnicas de cirurgia cardíaca quando ninguém operava o músculo vital. Em 1947, montou o primeiro grupo de cardiologistas do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Em 1975, inaugurou o Instituto do Coração.
O Instituto do Coracão, em São Paulo, é a vanguarda da cardiologia brasileira. Foi o primeiro a fazer implante de ventrículo esquerdo e já fez 10 000 transplantes de rins. Atualmente, desenvolve 98 projetos de pesquisa. O diretor, Fulvio Pileggi, vê progresso evidente na ciência brasileira: "O número de doutores formados pela pós-graduação é crescente e a produção brasileira em revistas internacionais dobrou em dez anos".
O professor Hilton Rocha (MG, 1911) criou em Belo Horizonte o maior centro oftalmológico da América Latina. O Instituto Hilton Rocha realiza 1 500 cirurgias oculares por mês e foi um dos primeiros a fazer transplante de córnea. Criou uma técnica inovadora para aproveitar partes de uma mesma córnea em dois pacientes. Para o diretor Paulo Gustavo Galvão, a pesquisa oftalmológica "avança para transplantar córneas de animais em pessoas".
O Hospital das Clínicas pertence à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e é o maior complexo hospitalar da América Latina. É uma usina de cientistas. Segundo o diretor-clínico, Irineu Tadeu Afonso, o prestígio da Faculdade depende do HC: "Quando não há vínculo como esse, não há também pesquisa médica nem produção de conhecimento, e a escola só pode vender conhecimentos tirados dos livros".
"Agora, que estou no Ministério da Saúde, me sobra pouco tempo para pesquisa", disse à SUPER o ministro Adib Jatene (AC, 1929), autor da primeira cirurgia de ponte de safena do Brasil e criador de técnica mundialmente consagrada para corrigir artérias transpostas em corações de bebês. "A ciência precisa muito de suporte técnico e financeiro", diz o ministro. "A USP gasta todo seu dinheiro em salário. Mas há perspectivas de melhora. A estabilização da economia e o desenvolvimento resolvem isso."
Há dois anos, Sílvia Brandalise (SP, 1944) descobriu um novo tipo de leucemia — a síndrome de Brandalise. Desde 1978, ela dirige o Centro Infantil de Investigação Hematológica Dr. Domingos Boldrini, em Campinas, que montou praticamente sozinha e transformou em instituição de referência mundial no tratamento do câncer infantil. "Hoje, tratamos de 5 000 crianças", conta. Ela acredita que algum dia o Brasil melhorará, embora "por ora, as evidências apontem no sentido contrário".
A cada dez minutos, os tapetes brancos da entrada do Hospital Sarah, em Brasília, são trocados, ritualmente, para sinalizar sua higiene impecável. A instituição é um centro de excelência em doenças motoras — e nada cobra por isso. Tem os melhores laboratórios de análise do movimento e de genética de doenças ósseas do país. Mais: constrói seus próprios equipamentos.Carlos Chagas (MG, 1879 - MG, 1934) descobriu em 1907 as causas, os sintomas e o meio de propagação do mal de Chagas, transmitido pelo mosquito barbeiro, que tem em seu intestino o protazoário Trypanosoma cruzi ("cruzi" em homenagem ao mestre Oswaldo Cruz). Viajou por territórios remotos do Brasil combatendo focos de epidemias e doenças. Provou que o sanitarismo básico melhoraria a saúde de todos.
Em 1904, Oswaldo Cruz (SP, 1872 - RJ, 1917) dirigiu o saneamento do Rio de Janeiro e enfrentou oposição intransigente contra a vacinação obrigatória antivaríola. A imprensa o chamava de "Oswaldo, o Rato" e "General Mata-Mosquitos". O povo não entendeu e se rebelou na famosa Revolta da Vacina. Mas a História lhe deu razão. Transformou o Instituto Soroterápico Federal (mais tarde, Instituto Oswaldo Cruz) na primeira instituição de pesquisa científica da saúde do país . Saneou a Baixada Santista. Formou a primeira geração de sanitaristas brasileiros.
Fundado em 1936 pelo filho de Carlos Chagas, o Instituto Evandro Chagas, em Belém, é uma referência mundial em doenças tropicais. Associado à universidades estrangeiras, realiza pesquisas sobre leishmaniose, hepatite, gripe, papilovírus e herpes. É um centro de excelência na Amazônia. "Acho que a ciência no Brasil só não está pior" — disse o diretor Jorge Fernando Travassos da Rosa à SUPER — "porque existe um grupo de cientistas abnegados, com objetivos claros, que, mesmo com poucos recursos, continuam trabalhando. Muitos já saíram do Brasil, mas alguns ficam, teimosamente".
Fundado em 1900, sob a direção de Oswaldo Cruz, o Instituto Soroterápico Federal mudou-se, em 1903, para um prédio novo, em estilo mourisco no subúrbio de Manguinhos, no Rio. Cinco anos depois virou Instituto Oswaldo Cruz.. É um dos maiores centros de investigação de doenças tropicais e biologia molecular do mundo. Transformado em Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 1970, tem 1 693 pesquisadores e é o maior produtor brasileiro de vacinas contra febre amarela. Foi o primeiro a isolar o vírus HIV no Brasil. Para o diretor, Dr. Carlos Morel, o Brasil tem que investir em ciência: "ao contrário dos anos trinta, quando o aço e o petróleo eram estratégicos, o que interessa hoje é o conhecimento científico e tecnológico".
Construído na antiga Fazenda Butantan, em 1901, o Instituto Serumtherápico assumiu o nome do lugar em 1925. Hoje, o Instituto Butantan é o maior fabricante mundial de soro e o maior produtor de vacinas do Brasil: são 24,2 milhões de doses contra tétano, difteria, tuberculose, cólera e gripe. Tem 150 pesquisadores e faz pesquisa de base e aplicada, desde a vacina contra Hepatite B a analgésicos extraídos do veneno da cascavel. Sua coleção de animais peçonhentos é atração turística em São Paulo. O diretor Isaías Raw disse à SUPER que "uma das pesquisas mais importantes atualmente é uma nova vacina contra a coqueluche".
Depois de estudar na Europa e dirigir um hospital no Hawai, Adolfo Lutz (RJ, 1855-1940) assumiu, em 1893, a direção do Instituto Bacteriológico de São Paulo — que, em 1940, viraria Instituto Adolfo Lutz. Especialista em lepra, realizou trabalho pioneiro sobre os mecanismos de ação do cólera, da febre amarela, do tifo e da malária. Pesquisou entomologia médica e zoologia no Instituto Oswaldo Cruz, no Rio, e viajou pelo país todo investigando condições de saúde. Deixou extensa obra sobre doenças epidêmicas e endêmicas brasileiras.Vital Brazil (MG, 1865-1950) trabalhou no Instituto Bacteriológico de São Paulo, em 1891, ao lado de Adolfo Lutz. Em 1895, mudou-se para Botucatu, onde atendia muitos camponeses mordidos por cobras. Num laboratório improvisado descobriu que o soro antiofídico deveria ser específico: para cada espécie de cobra, um tipo de soro deve ser usado. Foi o primeiro diretor do Instituto Butantan e, em 1919, fundou o Instituto Vital Brazil, em Niterói, para produzir vacinas.Bóris Vargaftig (Buenos Aires, 1937, naturalizado) comanda uma equipe do Instituto Pasteur, em Paris, que investiga alergias respiratórias. Provou, em 1989, que a molécula PAF (sigla em inglês para "Fator Ativador de Plaqueta") desencadeia crises asmáticas. Se descobrir uma droga "antiPaf", a asma poderá ser controlada. Vargaftig disse à SUPER que, "no exterior, a ciência brasileira é vista como promissora. Em geral, ela é constituída por cientistas bem formados, mas carentes de uma política científica que dê apoio material coerente e constante".
Prêmio Javits de Investigação Científica do Congresso dos Estados Unidos em 1991, Édson Xavier de Albuquerque (PE, 1936) está na ponta das pesquisas mundiais sobre o mal de Alzheimer. Chefe de um sofisticado laboratório da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, promove pesquisas interdiciplinares de genética, oncologia, neurobiologia, farmacobiologia molecular, metabolismo hepático e toxicologia. Seu objetivo: deter o estrago da doença no cérebro.
Uma das maiores autoridades mundiais em malária, Luiz Hildebrando (SP, 1930) é chefe da Unidade de Parasitologia Experimental do Instituto Pasteur, em Paris. Há dez anos dedica-se à descoberta da vacina antimalária com a ajuda da Biologia Molecular e da Engenharia Genética. É bom que ela venha logo. Está havendo uma escala de incidência de malária no Brasil: são 120 000 novos casos por ano, a maior parte na Amazônia. Hildebrando é otimista: "Até o final do século teremos uma vacina eficaz contra a doença".
A vacina contra a malária também poderá surgir das pesquisas do casal Vitor (SP, 1928) e Ruth Nussenzveig (Áustria, 1828, naturalizada), na Universidade de Nova York. A dupla está nos Estados Unidos desde 1963. Um protótipo, feito com proteínas dos parasitas injetados no sangue pela mordida do mosquito infectado, já foi testado, com sucesso parcial. Outro protótipo começará a ser testada este ano. "A malária é a doença tropical que infecta mais gente no mundo: só crianças, são 1 milhão por ano", disseram à SUPER.
Estudando magnetismo, Sérgio Mascarenhas (1928, RJ) criou um novo método de datação arqueológica. Seu conceito de bioeletreto mostrou que as grandes moléculas orgânicas, como o DNA, têm pólos elétricos opostos nas extremidades. Fundador do Instituto de Física e Química da Universidade de São Carlos, acha que é preciso estimular novos talentos. "Devemos privilegiar os aspectos sociais da ciência, atraindo os jovens e dando-lhes condições de trabalhar", disse à SUPER.
O físico José Goldemberg (1928, RS) criou métodos para investigar as reações entre a luz e os núcleos atômicos e para calcular a forma desses núcleos. É um dos maiores especialistas brasileiros em energia, desde a produção até o consumo e as fontes alternativas. Foi reitor da USP e Ministro da Educação, em 1992, no governo Collor. Considera necessário investir mais em ciência. "Embora há cinco anos se fale em dobrar as verbas, elas continuam no patamar de 0,7% do PIB", disse à SUPER.Sérgio Machado Resende (1940, RJ) estudou as propriedades magnéticas de substâncias, demonstrando que o valor do campo magnético pode variar arbitrariamente, caracterizando um estado de caos. Em 1972 criou o primeiro grupo de Física na Universidade Federal de Pernambuco. Na sua opinião, a ciência brasileira está pronta para dar um grande salto: "Já está produzindo conhecimento em quantidade suficiente para empurrar o desenvolvimento tecnológico do país".
Não é pequena a contribuição de Oscar Sala (1922, Itália). Mas de tudo que fez, considera a ajuda à formação de novos pesquisadores o mais importante. "Acho que formei pelo menos 100, em meus cinqüenta anos de trabalho". Suas pesquisas com raios cósmicos foram decisivas para análises posteriores das partículas subatômicas. Instalou no Instituto de Física da USP o Péletron, um acelerador de partículas que quebra os núcleos dos átomos para que se possa descobrir sua composição.José Leite Lopes (1918, PE) desenvolveu idéias pioneiras sobre as forças que atuam nos núcleos atômicos. Em 1956, conseguiu estimar a massa das partículas que carregam tais forças, identificadas só nos anos 80. Professor da UFRJ e da Universidade Louis Pasteur, em Estrasburgo, França, acha que "existe um certo elitismo nos altos escalões do governo ligados à formulação da política científica. Eles deveriam voltar pelo menos um dos olhos para o ensino básico, que é ruim".
Em 1947, Cesare Lattes (1924, PR) participou da experiência que provou a existência dos mésons-pi, partículas do núcleo dos átomos, que deu o Prêmio Nobel da Física ao seu colega Cecil Powell. Em 1948, na Califórnia, produziu artificialmente mésons-pesados, desenvolvendo a física de partículas elementares. Em 1951, ajudou a criar um laboratório de raios cósmicos no pico de Chacaltaya, na Bolívia. Estimulou as vocações de gerações de físicos brasileiros. Aposentado pela Unicamp, vive em Campinas.
Manifestações da chamada força fraca, descoberta pelo físico italiano Enrico Fermi, eram observadas em diversos tipos de desintegração de partículas subatômicas. Junto com o americano John Wheeler, Jaime Tiomno (1920, RJ) provou que, em todos os casos, se tratava da interação fraca, uma das quatro forças fundamentais do Universo. Tiomno foi professor do Instituto de Física da USP e ajudou a reformar o Instituto de Física da Universidade de Brasília.Moyses Nussenzveig (1933, SP) explicou matematicamente o espalhamento de luz que constitui o arco-íris e a decomposição de cores próxima à sombra dos objetos que forma a auréola. Trabalhou para a Nasa, a agência espacial americana. Desenvolveu pinças óticas que utilizam luz de laser para manipular in vivo microestruturas biológicas. "É preciso dar mais atenção à Física experimental, mais atrasada do que a teórica, pois os equipamentos custam caro", disse à SUPERJacques Danon (SP,1924 - RJ, 1989) ajudou Irene Joliot-Curie a aprofundar as descobertas sobre radioatividade, em 1947, no Centro Nacional da Pesquisa Científica de Paris. Foi um dos especialistas que decifrou o Efeito Mössbauer, um tipo de emissão de luz pelo núcleo atômico de um metal. Publicou 170 trabalhos sobre radioquímica e eletroquímica. Dirigiu o Departamento de Química Nuclear do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.
Em 1938, quando era estagiário da Universidade de Cambridge, Marcelo Damy (1914, SP) aperfeiçoou o Contador Geiger, aparelho medidor de radiação, aumentando a velocidade do seu funcionamento 1 000 vezes, da escala de milissegundo para a de microssegundo. Em 1949, foi responsável pela construção do primeiro acelerador de partículas brasileiro, o Bétatron, no Instituto de Energia Atômica da USP, que ajudou a fundar. Foi presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear. Vive no Rio de Janeiro.Newton da Costa (PR, 1929) inventou a lógica paraconsistente, cuja característica é admitir informações contraditórias. Programas de computador, como os que fazem diagnóstico de doenças, usam essa lógica capaz de oferecer uma resposta correta mesmo a partir de informações contraditórias. Para o ex-professor do Instituto de Matemática e Estatística da USP, em algumas áreas o Brasil faz ciência de primeira linha. "Mas é preciso investir mais na educação, pois o nível cultural da população é baixo".
Por seu empenho em modernizar a Matemática, disseminando os conceitos avançados da sua época, Lélio Gama (RJ, 1892 - 1981) é reconhecido como um pioneiro. Realizou pesquisas avançadas sobre geometria e gravimetria. Fez o primeiro mapa do valor da força gravitacional das regiões brasileiras. Estudou o movimento do pólos e as flutuações do magnetismo terrestre. Foi diretor do Observatório Nacional e o primeiro diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA).
Ao estudar equações que descrevem superfícies geométricas, Maurício Peixoto (PE, 1921), também do IMPA, demonstrou uma propriedade importante delas: a estabilidade estrutural. É possível mudar uma equação sem que o resultado final se altere. Peixoto é otimista quanto à política científica do Brasil: "Não vejo necessidade de mudá-la, pois está funcionando esplendidamente. Aliás, todo o país vai bem", disse à SUPER.Jacob Pallis (MG, 1940), atual diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) do Rio de Janeiro, mostrou que as equações que descrevem sistemas dinâmicos como órbitas de planetas, são estáveis: se um planeta sai do rumo, tende a voltar a ele. O mesmo pode-se dizer das equações: se mudarmos uma de suas variáveis, mantêm os mesmos resultados. Segundo Pallis, "o Brasil tem tudo para dar um salto à frente, só não pode faltar apoio do governo".
Professor do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e do IMPA, Leopoldo Nachbin (PE, 1922 - RJ, 1993) investigou métodos para modificar funções matemáticas, criando uma estrutura teórica que viabiliza cálculos numéricos complicados. Nela, uma função complexa é resolvida pela aproximação gradativa do resultado com o emprego de polinômios semelhantes à função, bem mais simples.Mário Schenberg (PE, 1916 - SP, 1990) estudou com Fermi e Pauli, na Europa. Descobriu o mecanismo de explosão das supernovas, mostrando, junto com o físico George Gamow, que elas jogavam energia fora na forma de neutrinos. Batizaram o efeito de "Urca", pela facilidade com que se perdia dinheiro no então Cassino da Urca, no Rio. Também estudou a evolução das estrelas e criou o critério Schenberg-Chandrasekhar para avaliar suas idades. Foi crítico de arte plásticas e deputado federal eleito em 1945.José Antonio de Oliveira Pacheco (SP, 1942), diretor do Observatório de Nice, na França, foi um dos primeiros a apontar que os raios cósmicos não têm origem extragaláctica, mas vêm da própria Via Láctea. Pacheco disse à SUPER que "as áreas em que o Brasil tem maior reputação são as biológicas. Mas a Física, hoje, começa a lidar com demandas brasileiras de aplicações práticas, como a óptica, as cerâmicas e o magnetismo. Com isso, vem obtendo destaque".Abrão de Moraes (SP, 1915 - SP, 1970) foi um dos criadores da Astronomia Brasileira. Professor de mecânica celeste, formou a primeira geração de astrônomos do país, dirigiu e dinamizou o Instituto Astronômico e Geofísico da USP. Em 1957, a partir da trajetória de satélites artificiais e das revelações russas sobre a viagem do satélite Sputnik, desenvolveu equações matemáticas para calcular a forma exata da Terra.
Em 1989, no Observatório Nacional do Rio, Luis Nicolacci (1950, RJ) chefiou uma equipe internacional que realizou o mais completo mapeamento do céu já feito. Localizaram 5 000 galáxias, até uma distância de 400 milhões de anos-luz. Suas pesquisas indicaram que há imensos vazios no Universo e locais onde as galáxias se agrupam. Na sua opinião, "a vida do cientista no Brasil é muito mais difícil do que deveria ser. Não há consciência do valor da ciência para a sociedade".João Steiner (1950, SC) ficou famoso, em 1980, ao consertar, em Nova Iorque, o telescópio orbital Einstein, da Nasa. Identificou boa parte dos quasares conhecidos na década de 80 e formulou a teoria de que mesmo as galáxias comuns têm um buraco negro no centro. Vice-diretor do Instituto Astronômico e Geofísico da USP, acha que o investimento em ciência no Brasil não precisa ser maior, "mas precisa ser mais regular". Além disso, "temos que dar atenção à parte experimental, pois nossa tradicão é voltada para o lado teórico".Giuseppe Cilento (Itália, 1923, naturalizado - SP, 1994), professor do Instituto de Química da USP e da Unicamp, teve reconhecimento internacional depois de produzir emissão de luz pelo excitamento químico de elétrons do sistema biológico. Sua descoberta mostrou que as células podem realizar processo fotoquímico sem aplicação de luz externa, a fotobiologia sem luz. Com essa descoberta pode-se, por exemplo, diferenciar o tipo de leucemia mielóide, antecipando seu tratamento específico.
Criar modelos que imitam células vivas para compreender de modo prático seu funcionamento é a empreitada do bioquímico Hernan Chaimovich (Chile, 1939, naturalizado), especialista em mecanismos de reação química dos sistemas biológicos. Chefe do Departamento de Bioquímica do Instituto de Química da USP (um dos mais produtivos do Brasil), acha que "no Brasíl o apoio à ciência é imprevisível. Falta uma visão estratégica de longo prazo. Não é uma questão de muita ou pouca grana, mas de levar a sério uma política científica".
Estudando a utilização da energia e sua transformação nos seres vivos, o médico Leopoldo De Meis (Itália, 1938, naturalizado), do Instituto de Química da UFRJ, descobriu o mecanismo transmissor de sinais de comunicação entre as células. Em especial, investigou as enzimas que transportam cálcio pela membrana celular. Na sua opinião, "nossa Ciência está crescendo graças ao apoio à pós-graduação. Tanto que não há doutores desempregados, pois há demanda no país."
O bioquímico Peter Dietrich (SP, 1936), da Escola Paulista de Medicina, decifrou os mucopolissacarídeos, compostos responsáveis pela aderência das células umas às outras, e os glicosaminoglicanos, carboidratos com funções importantes na superfície celular. Na sua opinião, a ciência brasileira é marginal: "Produzimos 5 000 trabalhos por ano, enquanto os EUA e a Europa, cada um, fazem 200 000. Gerar alta tecnologia com tal índice é sonho".
Do óleo da mamona, Gilberto Chierice (SP, 1943) descobriu um polímero (plástico) revolucionário na área médica. Pode ser empregado em próteses e na recomposição de ossos. Serve como cimento, bactericida, fungicida e até para substituir o gesso. Professor do Instituto de Química da Universidade de São Carlos, Chierice tem recusado empregos no exterior. "É no Brasil que quero continuar a produzir. Gosto daqui e acho que não conseguiria trabalhar em outro país".
Especialista em biologia de protozoários, o vice-diretor do Instituto de Biofísica da UFRJ, Wanderley de Souza (BA, 1951) é um dos maiores microscopistas eletrônicos da América Latina. Suas imagens microscópicas ajudam especialistas de várias áreas. Na sua opinião, a ciência vive um impasse: "Quanto aos pesquisadores, estamos num dos melhores momentos da história do Brasil, com boas equipes e bons trabalhos. Mas atravessamos uma profunda crise em investimento".Sérgio Ferreira (SP, 1935) descobriu uma substância importante contra hipertensão no veneno da jararaca. Em sua homenagem, a Sociedade de Hipertensão da Noruega instituiu o Ferreira Award. Participou da descoberta do mecanismo de ação de drogas como a aspirina, junto com o inglês John Vane, Nobel de Medicina de 1982. Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, a maior entidade de cientistas brasileiros, acha que "falta muito para que os cientistas sejam de fato utilizados para o desenvolvimento do país. Mas cabe à SBPC lutar também por isso".
O diretor do Instituto de Química da USP, Walter Colli (SP, 1939), busca a chave do combate ao mal de Chagas na composição química da membrana do protozoário Trypanosoma cruzi, que vive no intestino dos barbeiros. Já isolou a molécula LPPG e identificou a glicoproteína Tc-85 que viabilizam a invasão das células sãs pelo protozoário. Demonstrou que a enzima transialidase, que transfere açúcar entre as células, é relevante para o ataque da doença ao organismo.
Que estruturas cerebrais e que moléculas são importantes na memória? Como participam da evocação do passado? É o que os estudos do professor Ivan Izquierdo (Argentina, 1937, naturalizado) buscam decifrar: os fundamentos biológicos dos mecanismos da memória. Segundo a Folha de São Paulo, é o pesquisador brasileiro mais citado em trabalhos científicos internacionais. Sua pesquisa no Instituto de Bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul poderá servir para o tratamento de doenças como a Síndrome de Alzheimer.Fernando Galembeck (SP, 1943), diretor do Instituto de Química da Unicamp, descobriu a osmossedimentação, processo de aceleração da sedimentação de substâncias pela combinação com a osmose. Na separação de componentes, como os do sangue, permite usar centrífugas de baixa capacidade à velocidades 100 000 vezes maior. Também desenvolveu uma síntese de partículas, para a fabricação de pigmentos de tintas, e técnicas de aderência para plásticos e borrachas.
O químico industrial Otto Gottlieb (Tchecoslováquia, 1920, naturalizado), recebeu reconhecimento internacional por sua síntese interdisciplinar da química das plantas. Usou recursos ecogeográficos, morfológicos e metabólicos dos organismos e estabeleceu novos conceitos e métodos fitoquímicos. Para Gottlieb, "os estudos sobre biodiversidade são negligenciados no Brasil. A natureza precisa ser conhecida para ser mais bem utilizada pelo brasileiro".
Agrônoma especializada em microbiologia, Johanna Döbereiner (Tchecoslováquia, 1915, naturalizada) pesquisa insumos biológicos e manejo orgânico, em especial as bactérias que assimilam e fixam nitrogênio. No Centro Nacional de Pesquisa em Agrobiologia da Embrapa (RJ), desenvolveu as culturas de soja mais racionais do mundo, contribuindo para que o Brasil passasse a ser na década de 80 o segundo maior produtor mundial, depois dos EUA. Na sua opinião, "o maior desafio do homem moderno é vencer a fome".
Os 2 000 pesquisadores e 37 centros de pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) já deram 8 000 novas tecnologias ao país. Só com as pesquisas de bactérias que captam nitrogênio do ar, economizamos um bilhão de dólares por ano em adubos. As safras recordes da agricultura devem muito à empresa estatal. Para o presidente Alberto Duque Portugal, "instituições como a Embrapa são estratégicas para o futuro: a sociedade da informação e do conhecimento terá na tecnologia e na ciência seu alicerce".Francisco Mauro Salzano (RS, 1928) ajudou a criar os primeiros grupos de Genética Humana do Brasil, em 1956. Professor do Instituto de Biociência da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, investigou características evolutivas, normais e patológicas de populações indígenas e grupos étnicos. É membro do Conselho Diretor do Projeto Diversidade do Genoma Humano para a América Latina. Há 40 anos trabalha para demonstrar, geneticamente, a falsidade dos pressupostos ditos científicos do racismo.Crodowaldo Pavan (SP, 1919), professor vitalício do Departamento de Zoologia da Universidade do Texas, provou que o DNA varia de célula para célula. Até então vigorava o conceito genético de que elas tinham o mesmo DNA e em igual número. Suas pesquisas com o inseto Rhynchosciara angelae desvendaram o funcionamento gênico. Foi presidente da SBPC, do CNPq e da Fundação do Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Na sua opinião, sobra teoria e falta prática na ciência brasileira: "Fazemos muita ciência de base e pouca ciência aplicada. Após a II Guerra, o Brasil era superior ao Japão em genética, mas eles passaram a fazer ciência aplicada e, hoje, estão onde estão".
Autoridade mundial em abelhas, Warwick Estevam Kerr (SP, 1922) trabalha com genética na determinação de sexo e estrutura das populações de colméias. Em 1956, introduziu abelhas africanas no Brasil, que fugiram. Através de cruzamentos com outros exemplares, reduziu a ferocidade da espécie em 75%. Hoje, o tipo africanizado resiste a pragas e produz ótimo mel. Professor da Universidade Federal de Uberlândia, é o único brasileiro dono de uma vaga na Academia Nacional de Ciências dos EUA.Oswaldo Frota-Pessoa (RJ, 1917) especializou-se em genética médica e de populações humanas. Seus estudos de cromossomos humanos previram os riscos para a doença de Huntington, que degenera o sistema nervoso. Ex-professor do Instituto de Biociências da USP, trabalhou também com psiquiatria genética. "Tenho simpatia pela divulgação científica e consciência da sua importância. Mas só recentemente passou a haver tal consciência na mídia brasileira", disse à SUPER.
A expressão "São Paulo, a locomotiva do país", deve muito ao aprimoramento genético do café feito pelo engenheiro agrônomo Alcides Carvalho (SP, 1913 - 1993) no Instituto Agronômico de Campinas. Seus cultivares resistentes a pragas (como a ferrugem) viabilizaram a cafeicultura no estado. Criou as variedades "Urupês", "Novo Mundo", "Catuaí" e "Icatu" . Quase todos os cultivares de cafeeiro com interesse econômico plantados no Brasil provêm de linhagens adaptadas pelo cientista.Antonio Brito da Cunha (SP, 1925) pesquisou a genética e a evolução da Drosophila willistoni, a mosca-das-frutas, que ataca as plantas, medindo sua variabilidade genética e seu crescimento populacional. Suas pesquisas ajudaram a selecionar geneticamente os antibióticos. Ex-professor do Instituto de Biociências da USP, vê com humor a vida do cientista brasileiro: "O bom cientista deve ser pesquisador, educador, pedinte, despachante, importador e comissário; e tem de impor sacrifícios à família e a si próprio."
Nos anos 50, as pesquisas pioneiras de consangüinidade e genética médica de Newton Freire-Maia (MG, 1918) levaram à fundação do primeiro serviço de aconselhamento genético do país, em Curitiba, para orientar a reprodução humana. O professor da Universidade Federal do Paraná estudou diversos tipos de anomalias hereditárias e suas influências ambientais, descrevendo doenças desconhecidas e classificando-as segundo normas criadas por ele.
Professor do Departamento de Genética Médica da Unicamp, Bernardo Beiguelman (SP, 1932) investigou os mecanismos de resistência e suscetibilidade hereditária à hanseníase (lepra) e os fatores determinantes da freqüência de nascimentos de gêmeos. "A genética no país já esteve melhor. Entramos atrasados na Genética Molecular, nos recuperamos, mas já voltamos a deixar a desejar", disse à SUPER.
A Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, cultiva, desde 1926, a produção de tecnologias de ponta e a interação com o setor agropecuário privado. Mantém o maior complexo de melhoramento genético de aves da América Latina e um dos maiores projetos de desenvolvimento tecnológico de soja. Produziu as primeiras variedades de milho híbrido no país. São 8 656 alunos, 757 professores-pesquisadores e 358 laboratórios dedicados às tecnologias agrícolas.
O Centro Técnico Aeroespacial (CTA) do Ministério da Aeronáutica desde 1950 é uma usina de projetos tecnológicos estratégicos. Em 1976, em colaboração com o Instituto Nacional de Tecnologia, do Rio de Janeiro, desenvolveu o primeiro carro brasileiro com motor a álcool — um Dodge 1800 GL. Na década de 80 o álcool combustível economizou ao país bilhões de dólares em importação de óleo. E criou uma alternativa energética sustentável e vital para diminuir a poluição das cidades brasileiras.
Criada em 1969, a Empresa Brasileira de Aeronáutica (EMBRAER) nasceu como empresa pública para fabricar o avião Bandeirante, desenvolvido no CTA. Foi um sucesso. Rápido, robusto e capaz de operar em pistas curtas e não pavimentadas, em 25 anos 500 Bandeirantes foram vendidos para 37 países. Depois, vieram o avião de transporte Brasília, o aparelho de treinamento militar Tucano e o jato AMX. Em 1994, a Embraer foi privatizada.Alberto Santos Dumont (MG, 1873 - SP, 1932) estudou física, química e mecânica em Paris e, em 1906, tornou-se o primeiro homem a voar com um aparelho mais pesado que o ar, o avião 14-Bis. Era um gênio de 1,52m de altura. Além de inventar o sapato plataforma, construiu 20 aparelhos voadores, entre balões e monoplanos. Trouxe da França o primeiro automóvel a andar no Brasil. Construiu em Petrópolis uma casa surrealista com móveis desproporcionais, a "Encantada". Angustiou-se com a utilização bélica do avião, durante a I Guerra Mundial. Com 59 anos, enforcou-se no cano do chuveiro de um quarto de hotel, no Guarujá, no litoral paulista.
Engenheiro, arquiteto, urbanista e poeta, Joaquim Cardoso (PE, 1897 - RJ, 1978) renovou a concepção estrutural do concreto armado com seus métodos de cálculo. Em 1941 associou-se a Oscar Niemeyer, de cujos projetos passou a ser o calculista. Deu sustentação no concreto à ousadia e à leveza propostas na prancheta. Ajudou a renovar a arquitetura mundial. Sua contribuição para a experiência arquitetônico e urbanísticade Brasília é enorme e pouco reconhecida.
Para construir a Usina de Itaipu foram usados 12,5 milhões de m3 de concreto (ou 210 estádios do Maracanã) e aço suficiente para construir 350 torres Eiffel. Em 18 anos de trabalho, foram removidos 63,8 milhões de m3 de rocha e terra (oito vezes mais que no Eurotúnel). Para erguer seu paredão de 196 metros de altura, usaram-se guindastes e tecnologia de concretagem avançados. Hoje, Itaipu fornece 30% de toda a energia consumida no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
O Satélite Coletor de Dados 1 (SCD1) é o primeiro totalmente construído no Brasil. Fruto do trabalho conjunto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e do Centro Técnico Aeroespacial (CTA), ambos em São José dos Campos, São Paulo foi lançado de uma base na Flórida, em 1993, para sensorear dados oceanográficos, atmosféricos e florestais. Seu sucesso abre caminho para equipamentos de maior alcance. Com 211 pesquisadores, o INPE espera ter mais 17 satélites no espaço até o ano 2 000. Para entrar de vez na era da teleinformação.
Criado em 1968, o Departamento de Informática da PUC-RJ foi um dos primeiros do mundo. As pesquisas que desenvolve vão da inteligência artificial à multimídia. Seus projetos de capacitação tecnológica contribuem com 10% da receita da PUC-RJ. Segundo o diretor, professor Arndt Von Spaa, "o Brasil precisa investir em software. Não há sentido em competir com os gigantes do hardware. Além disso, o custo inicial é modesto. O país precisa de inteligência específica".Bartolomeu de Gusmão (SP, 1685 - Espanha, 1724) foi estudar em Coimbra, com 15 anos, ordenou-se sacerdote e distinguiu-se como pregador. Também estudou física e matemática e concebeu um aeróstato (nome dos aparelhos como balões e dirigíveis), que chamou de "instrumento de voar". A primeira tentativa de vôo, malograda, foi em Lisboa, na presença da corte. Na terceira, em 1709, conseguiu subir quatro metros. Foi uma sensação. O povo passou a chamar o aparelho de "passarola" e a Gusmão de "Padre Voador". Mas quem levou as glórias e o crédito pela invenção do balão foram os irmãos franceses Montgolfier, em 1783.
Criada em 1953, a Coordenação de Programas de Pós-Graduação de Engenharia (COPPE), da UFRJ, mantém 130 pesquisadores e 65 laboratórios em ação. Graças a ela, o Brasil tem avançadas tecnologias de operação oceânica e de concretagem. Na engenharia naval, desenvolveu plataformas de petróleo para operar em profundidade. Montou sofisticados tanques de hidrodinâmica, que simulam as condições do mar, e câmaras hiperbáricas (de alta pressão) para testar dutos submarinos.
O ex-pracinha Celso Furtado (PB, 1920) analisou toda a evolução brasileira no clássico Formação Econômica do Brasil. Além disso, criou a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), foi ministro do Planejamento do governo João Goulart, em 1963, e da Cultura do governo José Sarney, em 1986. À SUPER, o economista disse que o "desenvolvimento científico passa pela reformulação das prioridades globais e pela solução dos problemas sociais do país".
Fundado em 1969 por cientistas afastados da universidade pelo governo militar, o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) já produziu mais de 200 títulos científicos. Seus pesquisadores criaram uma verdadeira constelação na ciência social brasileira: Fernando Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti, Francisco de Oliveira, Paul Singer, Roberto Schwarz, Leôncio Martins Rodrigues, Elza Berquó, Carmen Junqueira, Francisco Weffort, Octávio Ianni e outros.
O sociólogo Antonio Candido de Mello e Souza (RJ, 1918) é um dos maiores críticos literários do Brasil. Seu livro Formação da Literatura Brasileira - Momentos Decisivos, de 1959, analisa movimentos literários na Colônia e no Império, no processo de construção de uma literatura nacional. "É a nossa literatura, e não outra, que nos exprime", afirma. "Se não for amada, não revelará a sua mensagem: e se não a amarmos, ninguém o fará por nós".
Historiador e crítico literário, Sérgio Buarque de Holanda (SP, 1902 - RJ, 1982) dissecou o imaginário europeu na América em Visão do Paraíso (1956). Em Raízes do Brasil (1936), definiu o brasileiro como "homem cordial" — aquele que age segundo o coração, com afetividade extrovertida, não necessariamente sincera, avesso à aceitação de normas impessoais. Segundo Sérgio, os brasileiros privilegiam marcas pessoais e familiares e rejeitam relações formais, como as da vida pública, procurando reduzi-las ao padrão pessoal e afetivo. Daí um mal político duradouro: a tendência para tratar questões públicas como privadas.Florestan Fernandes (SP, 1920 - SP, 1995) renovou as Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras da Universidade de São Paulo com o clássico A Função Social da Guerra nas Sociedades Tupinambá, de 1951. Em 1964 foi a vez de A Integração do Negro na Sociedade de Classes, uma crítica marxista ao otimismo de Gilberto Freyre sobre a miscigenação racial. Em 1975, publicou Revolução Burguesa no Brasil, sobre a luta de classes no país. Foi Deputado Federal de 1987 a 1995.
Em 1933, Gilberto Freyre (PE, 1900 - 1987) revolucionou a sociologia com Casa Grande e Senzala, uma interpretação positiva da contribuição lusitana, indígena e africana à cultura brasileira, aprofundada por Sobrados e Mocambos, de 1936. Sua obra teve repercussão mundial. Em 1951, esboçou o lusotropicalismo, depois desdobrado em tropicologia, como teoria interdisciplinar do homem situado no Trópico. Foi um dos cientistas brasileiros mais premiados no exterior, doutor honoris causa de inúmeras universidades estrangeiras. Em 1971, recebeu da Rainha Elizabeth II, da Inglaterra, o título de Sir.Fernando Henrique Cardoso (RJ, 1931) é um caso raro de intelectual que virou presidente da República. Em 1969, com o chileno Enzo Faletto, publicou Dependência e Desenvolvimento na América Latina, renovando as Ciências Sociais com a "teoria da dependência". Rompeu com as análises que condenavam um país na periferia do capitalismo, como o Brasil, ao marasmo ou à revolução, e mostrou que poderia haver desenvolvimento, "dependente e associado". à SUPER o Presidente mandou um fax afirmando que nos próximos anos haverá "um salto qualitativo na pesquisa científica e tecnológica" e que os cientistas "têm um papel central a desempenhar na construção de uma sociedade mais justa e igualitária". O presidente também vê avanços no jornalismo científico: "A SUPER supriu uma grande lacuna, dando ao público jovem acesso à informações que, além de mantê-lo a par das conquistas, cumpre a missão de despertar vocações para a pesquisa científica".
Sociólogo, historiador e crítico literário, Raymundo Faoro (RS, 1925) foi um dos primeiros a usar a metodologia do sociólogo alemão Max Weber na análise social brasileira. Seu clássico Os Donos do Poder (1958) revelou o peso, a estabilidade e o caráter privado do Estado na formação do país. Jurista, Faoro foi presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (1977-1979).
O Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) do Museu Nacional (UFRJ), no Rio de Janeiro, reúne uma elite de pesquisadores em Antropologia, ciência em que o Brasil tem tradição de excelência. Criado em 1968, estimulou a obra de cientistas como Gilberto Velho, Otávio Velho, Moacir Palmeira, Yonne de Freitas Leite, Lygia Sigaud, Eduardo Viveiros de Castro e outros que por lá passaram como Roberto Cardoso de Oliveira, Luiz de Castro Faria e Roberto da Matta.
Educador e filósofo da educação, Paulo Freire (PE, 1921) tem uma obra traduzida em diversos países e 30 títulos de doutor honoris causa. Criou um método de educação que trata o ensino como fato político e de linguagem, aliando competência técnica à conscientização do ambiente pelo estudante. Freire considera que não há texto sem contexto e propõe ensinar a estudar e não a armazenar. "A prática educativa é uma prática política que coloca ao educador uma opção: você educa com vistas a um certo ideal".Azis Ab’Saber (SP, 1924) é o mais respeitado geomorfogista brasileiro. Ampliou a geografia com seus estudos sobre a formação da floresta amazônica e os domínios morfoclimáticos e fitogeográficos. Tem sido um defensor vigilante do patrimônio natural do país. Sua crítica às distorções dos projetos de desenvolvimento ajudou a divulgar os estudos de previsão de impacto e os métodos de gerenciamento ambiental. "Nos últimos anos, houve um avanço extraordinário do ambientalismo", disse à SUPER. "Mas também aumentou a reação contra".
Especialista em urbanização no Terceiro Mundo, Milton Santos (BA, 1926) é autor de 30 livros e doutor honoris causa em quatro universidades. Sua obra sobre geografia humana analisa o processo de urbanização do ponto vista econômico, social e cultural, juntando o território físico às sociedades que se organizam nele. "É impossível entender uma coisa sem a outra", disse à SUPER. Para Santos, "o futuro da ciência está nas mãos do intelectual, e nem todo cientista é um intelectual".José Galizia Tundisi (São Paulo, 1937), presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), é um papa em limnologia, o manejo dos sistemas aquáticos. Em 1995 ganhou o prêmio Boutros-Ghali, da ONU, por suas pesquisa sobre águas continentais. "A água é muito mal cuidada no Brasil", considera ele. "É comum coletar água de boa qualidade e devolver água poluída ao ambiente. No mundo todo, falta planejamento de uso d’água".
O físico espacial Volker Kirchhoff (Alemanha, 1942, naturalizado) criou o Laboratório de Ozônio no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para estudar a incidência no Brasil dos raios ultravioletas que partem do sol e ultrapassam a camada de ozônio da atmosfera terrestre. Sua pesquisa pode orientar cuidados com a exposição solar e prevenir o câncer de pele. "Ciência não é bicho de sete cabeças", garante. "Basta que nos dêem os instrumentos para que ela se desenvolva".
Criado em 1952, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) é o cérebro da Amazônia. Tem 900 pesquisadores, três campi em Manaus e várias estações de pesquisa. Tem o maior acervo de conhecimentos sobre o Trópico Úmido do mundo. Seu diretor, Ozório José de Menezes Fonseca, acha que a crença do brasileiro na ciência é regionalizada: "Aqueles que têm os privilégios da Zona Franca consideram que ciência de boa qualidade é um aparelho de TV. Para eles, um cientista identificando uma nova espécie biológica é uma absoluta inutilidade. Onde o nível educacional tem melhor qualidade o entendimento deve ser outro".
Além dos seus estudos sobre abelhas indígenas, o zoólogo Paulo Nogueira Neto (SP, 1922), catedrático de Ecologia da USP, deu uma contribuição crucial à Ciência: criou mais de 30 reservas e estações ecológicas no Brasil, quando foi presidente da extinta Secretaria (Federal) do Meio Ambiente, de 1973 a 1986. São 3,2 milhões de hectares, um território do tamanho da Bélgica, protegidos para a ciência. Nogueira Neto expandiu a mentalidade conservacionista.
Militar, engenheiro e jornalista, Euclides da Cunha (RJ, 1866 - 1909) também foi geógrafo, geólogo e etnólogo — o primeiro ecólogo do país digno do nome. Em 1902, com Os Sertões, desvendou para um Brasil sonolento o interior bruto da Bahia e a sociedade de Canudos. Mostrou como o homem "fazedor de desertos" ajudou a degradar a terra no Nordeste. Também explorou a Amazônia e analisou as nascentes do Rio Purus, em Contrastes e Confrontos (1907) e À Margem da História (1909). Sua obra pioneira revelou a vastidão da realidade física do Brasil.
O neuroanatomista e zoologista Angelo Machado (MG, 1934), catedrático de Zoologia da Universidade Federal de Minas Gerais, publicou centenas de trabalhos e descobriu novas espécies de insetos. Desde 1974, dedica-se à educação ambiental, tendo feito mais de 150 conferências para crianças. Coordenou a equipe responsável pela lista das espécies da fauna ameaçadas de extinção, em vigor. "Espero estar formando uma consciência ecológica nas futuras gerações", disse à SUPER.
O agrônomo Enéas Salati (SP, 1933) mostrou, no Centro de Energia Nuclear na Agricultura, em Piracicaba, que a Amazônia é vital para a saúde do planeta. A evapotranspiração da água e das plantas recicla as chuvas que se deslocam para Sul e Norte e esquentam a corrente do Golfo, determinando o clima até na Escandinávia. Para Salati, o problema da ciência brasileira é a falta de continuidade: "É fundamental uma política que defina prioridades científicas".
Em 1961, Johann Dalgas Frisch (SP, 1930), engenheiro e ornitólogo, gravou dezoito discos com sons de pássaros da Amazônia. Foi o primeiro a registrar o canto do pássaro-boi, do sabiá poliglota e do uirapuru. Dirigiu a Associação Brasileira de Preservação da Vida Selvagem. Editou o melhor guia de pássaros do Brasil, Aves Brasileiras (1.560 espécies). Na sua opinião, a Ciência depende da juventude, "que tem sede de aprendizado mas não tem a ferramenta do conhecimento".
O biólogo Mário Autuori (SP, 1907-1982) estudou insetos e formigas saúvas durante 25 anos, publicando centenas de trabalhos. Em 1958, foi fundador e diretor do Zoo de São Paulo, transformando-o em fundação em 1960. Ampliou a instituição até convertê-la em um núcleo de pesquisa. Defensor dos animais, tinha uma máxima: "Antes de matar um bicho, observe-o durante dez minutos, o suficiente para descobrir maravilhas. Depois, não terá coragem para matá-lo".
O naturalista Augusto Ruschi (ES, 1915-1986) foi um famoso especialista em beija-flor (colibri) e orquídeas. Descreveu cinco novas espécies do pássaro e onze subespécies e, das orquídeas, 45 espécies desconhecidas. Publicou mais de 400 trabalhos. Criou, em Santa Tereza (ES), o Museu Mello Leitão, que dirigiu por 40 anos. Reproduziu em viveiro as 350 espécies de colibri existentes. Morreu envenenado por um sapo dendrobata, por ele mesmo capturado na Serra do Navio, no Amapá.
O compositor popular, médico e zoólogo Paulo Vanzolini (SP, 1923), do Museu de Zoologia da USP, é um dos maiores especialistas do mundo em lagartos. Descobriu espécies e subespécies novas na Amazônia. "Em zoologia, há um campo de pesquisas cada vez maior, contando a pesca marinha e a conservação da Natureza", disse à SUPER. Considera que a ciência melhorou: "São mais pessoas atuando, cada vez mais especializadas. Uma promessa para o futuro é a biologia molecular".
O entomólogo José Cândido de Mello Carvalho (MG, 1914 - 1994) foi um grande especialista em hemípteros (insetos com asas ou barbatanas) e mirídeos (hemípteros sugadores de seiva, como percevejos e pragas do cacau e do café). Descreveu 267 gêneros e 1 319 espécies de insetos. Seu Catálogo de Mirídeos do Mundo (1 100 páginas) descreve 90% das espécies americanas e 10% das espécies mundiais. Carvalho renovou o Museu Paraense Emílio Goeldi (1955) e o Museu Nacional, no Rio (1958).João Murça Pires (SP, 1917 - PA, 1994) dedicou a vida à taxonomia vegetal e à identificação de plantas. Criou o herbário do atual Centro de Pesquisas Agrárias do Trópico Úmido, em Belém. Formou centenas de pesquisadores em botânica básica. Em 1975, tornou-se diretor do Departamento de Botânica do Museu Paraense Emílio Goeldi, cujo herbário triplicou em número de espécies: são 150 000 plantas secas, além de coleções de pólen, madeiras e células.
Fundada em 1891, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), que pertence à USP, mantém em Piracicaba 2 000 projetos privados, dezesseis cursos de mestrado, oito de doutorado, 250 professores, 2 000 alunos e cinqënta laboratórios. Seu Departamento de Engenharia Florestal concentra-se em silvicultura, ecologia aplicada e tecnologia de produtos florestais. Sua disposição é chegar ao manejo sustentado das florestas naturais e bacias hidrográficas.
Em 1768, Alexandre Rodrigues Ferreira (BA, 1756 - Portugal, 1815) trocou a Bahia pela Faculdade de Filosofia Natural de Lisboa. Em 1782, voltou para "averiguar inscrições, costumes, comércio e agricultura na colônia". Viajou 40 000 quilômetros, coletou milhares de espécies da fauna, flora e minerais e publicou o diário Viagem Filosófica às Capitanais do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá, com 1 067 ilustrações belas e rigorosas.Niède Guidon (SP, 1929) dirige a Fundação Museu do Homem Americano, em São Raimundo Nonato, Piauí, onde, em 1970, descobriu um sítio arqueológico com pinturas e vestígios humanos de milhares de anos. Também achou pedras esculpidas e carvões que alega terem 48 000 anos. Se conseguir provar isso, derrubará a teoria sobre a chegada do homem na América, há 12 000 anos, pelo Estreito de Bering. Para Niède, eles já viviam no Piauí muito antes. Mas há arqueólogos que duvidam das provas apresentadas. Só o futuro dirá quem tem razão. Aliás, para a arqueóloga, nosso futuro deve ser o ensino básico. "Mudar o ensino básico é uma prioridade científica. Só a educação, a ciência e a tecnologia podem salvar este país", disse à SUPER.

2 comentários:

  1. Merecida a homenagem...
    Apenas uma restrição: a parte sobre o Paulo Freire é besteira, enrolação. Paulo Freire nada criou de novo, não revolucionou nada. Era apenas um copiador de Laubach. Sem falar que o seu método ''revolucionário'' nunca foi, na prática, aquilo que se propaga por aí. Você conhece alguém alfabetizado pelo método Paulo Freire? Conhece alguém de destaque que foi alfabetizado por essa pedagogia? Na verdade, Paulo era mais um doutrinador comunista disfarçado de professor. A Super às vezes abusa. Abraço e belo blog. Parabéns!

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  2. A Usina de Itaipu é uma construção fantástica mesmo.
    Quando fui conhecer o ano passado, não dava nem para acreditar que capacidade humama construiria tudo aquilo.
    Orgulho brasileiro e paranaense.

    Abraço.

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