segunda-feira, 2 de julho de 2012

Professores de Matemática ou Algebristas?




Estatísticas nos mostram que o ensino da matemática em nosso país não é um dos melhores do mundo, e em virtude disso é preciso tomar uma providência para inverter esse quadro.
Em recente entrevista à revista Nova Escola, Jeremy Kilpatrick, professor norte-americano do Instituto de Educação em Matemática da Universidade de Geórgia e integrante da Academia Nacional de Educação dos EUA, declarou que a única saída para melhorar o ensino de matemática é aprimorar os programas de formação dos educadores.
Não diria a única saída, mas com certeza uma das mais importantes para aprimorar o ensino da Matemática. Atualmente há universidades que falham em suas matrizes curriculares, fazendo com que os profissionais saiam sem a devida preparação para ministrar aulas. Além disso, o aluno do ensino fundamental ou médio não consegue entender a matemática que lhe é ensinada nas escolas, muitas vezes é reprovado nesta disciplina, ou então, mesmo que aprovado, sente dificuldades em utilizar o conhecimento "adquirido", em síntese, não consegue efetivamente ter acesso a esse saber de fundamental importância. O professor é consciente de que não consegue alcançar resultados satisfatórios junto a seus alunos e tendo dificuldades de, por si só, repensar satisfatoriamente seu fazer pedagógico, procura novos elementos - muitas vezes, meras receitas de como ensinar determinados conteúdos - que, acredita, possam melhorar este quadro. Uma evidência disso é, positivamente, a participação cada vez mais crescente de professores nos encontros, conferências ou cursos.
O professor deve apropriar-se dos diferentes caminhos de se fazer matemática em sala de aula, e mais importante que isso, utilizar a linguagem matemática, assim desenvolverá seu principal papel: mostrar o que é e qual a necessidade da aprendizagem dessa disciplina. Estando inserida em quase tudo a nossa volta, a Matemática requer do docente a interação de assuntos diversos, produção de textos e questionamentos sobre quaisquer temas, por isso, o professor de matemática não deve saber somente a matemática.
Malba Tahan, um dos grandes educadores do seu tempo, citou uma frase justificando a desestima dos alunos pela matemática: “ isso é obra  de um inimigo roaz e pernicioso; um inimigo que é para a Matemática como a broca é para o café, a lagarta para o algodão e a saúva para todo o Brasil” (TAHAN, DIDÁTICA DA MATEMÁTICA, 1965v1), atribuindo-a ao professor meramente algebrista que, na sua total falta de aptidão para chegar a conclusões úteis ou interessantes, inventa problemas obscuros, enfadonhos, incríveis, inteiramente divorciados de qualquer finalidade prática ou teórica; procura, para resolver questões simples,  artifícios complicados, tropeços sem o menor interesse para o aluno, apresentando a matemática fora dos objetivos reais, sem nenhuma aplicação.
O algebrista se preocupa com questões que possam confundir o estudante, não se interessa com os dados nem com a finalidade e, muito menos, com a realidade do problema.
Um exemplo: “5120 litros de chumbo, com 785000 centímetros cúbicos de algodão, mais 2500 quilogramas de água, quantos quilolitros pesam?” Este problema é completamente irreal. Essa mistura de unidades de medição não tem fundamento algum. Quilolitros é uma unidade fora de contexto, que ninguém a utiliza no cotidiano. Seria plausível medir a água em mililitros, litros ou até mesmo em metros cúbicos do que em quilogramas.
Para atenuar os efeitos do algebrismo, algumas etapas poderiam ser seguidas:
1. Uma minunciosa revisão dos programas de matemática é a primeira etapa objetivando sua simplificação, tornando-os mais vivos e interessantes.
2. Apresentar todos os pontos do programa sob forma analítica. O programa sintético colabora indiretamente com a tendência albegrista de certos professores. Por exemplo, se no programa estiver escrito “estudo das equações irracionais”, o algebrista descobre, logo, um pretexto para exigir dos alunos uma infinidade de tipos de equações irracionais. Como não existe, no universo dos alunos, problema algum que conduza a uma equação irracional extremamente complicada, deve-se evitar este tipo de abuso matemático. O professor tem que se limitar a equações mais simples, de modo que o aluno possa visualizar uma possível aplicação para a equação estudada, tornando a aprendizagem mais direcionada e interessante.
3. Não permitir que nas provas sejam propostos aos alunos exercícios com unidades inusitas.
4. Não propor problemas em falso, isto é, problemas com dados numéricos fora da vida real. O problema apresentado ao educando não deve falsear a verdade.
Porém, só isso não garante. As escolas carecem de materiais, recursos tecnológicos e novas metodologias. É preciso um conjunto de ações, bem articuladas e planejadas, pois a matemática, como qualquer outra disciplina, tem suas dificuldades ou complicações e é comum ouvir-se de estudantes a confissão de incapacidade para compreendê-la. Por esse motivo, seu estudo deve ser atraente, simples e de acordo com a realidade.

Fonte: www.planetaeducacao.com.br

2 comentários:

  1. Caro Professor Fernando. Por essas e outras, sou ignorante na matéria. Para mim as aulas de matemática eram de um enfado sem fim. Sempre ficava desenhando ou fazendo outra coisa. Creio que meus professores eram péssimos. Também nossos "intelequituais" da educação estão transformando o professor em burocrata. De uma profissão bela, onde procuramos transmitir conhecimentos, ficamos reduzidos a preparar as enfadonhas cadernetas, que ninguém jamais vai pelo menos dar uma vista, e fazer relatórios mil. E ainda somos praticamente obrigados a passar todo mundo. Ainda tem a indisciplina e o assédio moral, agora com a participação de alunos. Uma espécie de fascismo assombra nossa profissão. Parabéns pelo blog, e um grande abraço. Venha me fazer uma visita a hora que quiser, ficarei honrado. Se tivesse tempo e dinheiro, o contrataria para me dar umas boas aulas de matemática. Todavia, como diz o ditado popular: "papagaio velho não aprende mais a falar. Saudações democráticas, e amistosas. Rafael Brasil.

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  2. Obg por prestigiar o blog. Um abraço Profº Rafael Brasil. Vou aparecer mesmo aí.

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