segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A beleza da matemática

Um desafio global: formar professores capazes de passar a paixão pelos números aos alunos
“O binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo. / O que há é pouca gente para dar por isso.” — Escreveu Álvaro de Campos, através de Fernando Pessoa, num pequeno poema que sei de cor desde a adolescência e que sempre me sobressaltou. Quando tentam explicar a paixão que os move, quase todos os grandes matemáticos acabam insistindo em duas palavras: verdade e beleza. Elegância é outro adjetivo muito comum, e um tanto surpreendente no idioma despojado e preciso dos matemáticos.
“O verdadeiro espírito de alegria e exaltação — no sentido de ser mais do que o Homem — que é a pedra de toque da mais alta excelência encontra-se na matemática, tanto quanto na poesia.” A afirmação é do filósofo britânico Bertrand Russel. Estudos recentes de neurociência vieram confirmar a afirmação de Russel: a resolução de um qualquer problema matemático, através de uma fórmula elegante, ativa as mesmas áreas cerebrais que a leitura de um bom poema ou a audição de um samba de Cartola ou de Paulinho da Viola.
Em “Uma história da simetria na matemática” (Zahar), Ian Stewart vai um pouco mais longe. Segundo ele, “em física, a beleza não garante automaticamente a verdade, mas ajuda. Na matemática, a beleza deve ser verdade — porque as coisas falsas são sempre feias”.
Desta forma, procurando a beleza, deveríamos chegar inevitavelmente à verdade. Ao menos na matemática. Fora da matemática nem sempre é assim, o que, sinceramente, acho uma pena. Imaginem um mundo onde as pessoas fossem tanto mais bonitas quanto mais honestas, simples e sinceras. Tudo seria mais fácil.
Fui um aluno medíocre em matemática, pelo menos até chegar à universidade. Em Agronomia e Engenharia Florestal encontrei, pela primeira vez, bons professores, pelo que melhorei ligeiramente as minhas notas. Recordo que acompanhei algumas aulas de lógica matemática com um sentimento de surpresa e maravilhamento muito semelhante àquele com que li os primeiros livros de Jorge Luis Borges (por um acaso feliz, descobri ambos na mesma altura).
Nos últimos anos voltei a interessar-me por matemática, como resultado de uma paixão mais geral sobre linguagem e comunicação. O grande livro do universo, como lembrou Galileu, lá longe, no século XVII, está aberto diante dos nossos olhos e foi escrito no idioma da matemática. Se um dia a humanidade entrar em contato com alguma civilização extra-terrestre, a linguagem utilizada será, sem dúvida, a matemática. Carl Sagan sugere isso mesmo em “Contato”, livro que serviu de base para o filme com o mesmo nome, dirigido por Robert Zemeckis. No livro (e no filme) a protagonista, Ellie, convence-se que há uma civilização extraterrestre avançada tentando contatar a humanidade, ao capturar uma emissão vinda do espaço com uma sequência de números primos. Mais tarde, essa civilização avançada envia uma série de fórmulas matemáticas, as quais permitem a construção de uma máquina capaz de transportar Ellie até esse mundo remoto.
A suposição de Sagan faz todo o sentido. Imaginemos que um extraterrestre desembarque no Rio de Janeiro. É altamente improvável que queira tomar uma cervejinha conosco para conversar sobre as propostas de Michel Temer e Marcelo Crivella ou o resultado das eleições americanas, ainda que a inesperada vitória de Donald Trump possa preocupar até mesmo os marcianos. É improvável também que se interesse por futebol, por teologia ou por pornografia. Quero acreditar que esse visitante extraterrestre será sensível à música (pelo menos a alguma música, certamente não ao country), na medida em que esta tem forte parentesco com a matemática. A música é quase uma expressão sonora da matemática. Vários compositores vêm usando no seu trabalho conceitos matemáticos complexos, como, por exemplo, a famosa Sequência de Fibonacci, presente em muitas estruturas e fenômenos naturais.
Do que não tenho dúvida é que os principais temas de conversa entre nós e esses primeiros visitantes vindos das estrelas seriam a própria matemática; a seguir viriam, possivelmente, a física, a astronomia e a biologia. Poucas disciplinas, pois, são tão fascinantes e fundamentais quanto a matemática. Como explicar então o desinteresse da larga maioria dos estudantes pela matemática, não apenas no Brasil, mas em quase todo o mundo?
No meu caso, sei por que foi: até chegar à universidade nunca tive um único bom professor de matemática, ou seja, alguém apaixonado por números, e pelas misteriosas relações entre eles e a mecânica do universo, e capaz de transmitir essa paixão aos alunos.
Este deveria ser um desafio global: formar melhores professores de matemática. Colocar a humanidade inteira a ler em conjunto o grande livro do universo.



Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/a-beleza-da-matematica-20462830#ixzz4Q281B1oy
© 1996 - 2016. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização. 

Conheça a universidade de tecnologia que não tem professores


Conheça a universidade de tecnologia que não tem professores

Inaugurada neste mês na Califórnia, a 42, é uma universidade diferente: com o objetivo de ensinar codificação e desenvolvimento de software, a instituição não tem livros, nem professores nas salas de aula. E o melhor: sem cobrar nada por isso.
Mas como são feitas as avaliações? De acordo com a universidade, ao longo do ano os alunos são divididos em grupos e auxiliam, assim como avaliam os projetos de seus colegas de sala. Entre os projetos que podem escolher trabalhar estão criar um site ou um game, tarefas reais para quem trabalha no setor.  A nota é dada por um aluno escolhido aleatoriamente que analisa todo o projeto.
A cada projeto concluído, os alunos sobem de nível, se formando ao atingir o 21, o que leva de três a cinco anos.

teacherless university
De graça
A universidade foi fundada por Xavier Niel, um bilionário da tecnologia, o que garante os estudos e moradia dos alunos sem cobrar por isso. O objetivo da instituição é atender cerca de 1.000 alunos por ano nos cursos.
A universidade não é nova. Na França, ela funciona desde 2013 e tem obtido bastante sucesso entre os jovens. Para quem duvida do método, a 42 – que tem seu nome inspirado na série de livros O Guia do Mochileiro das Galáxias – apresenta as empresas onde seus alunos recém-formados trabalham: IBM, Amazon e Tesla, além de companhias próprias.
computer student
Os diretores da instituição explicam que as companhias tem destacado os diferenciais do ensino, declarando que os estudantes são mais propensos a descobrir informações sozinhos, em vez de pedir ajuda aos chefes.
Apesar de inovador, o método pode não ser ideal para todo mundo. “Ele combina com indivíduos muito disciplinados e automotivados”, explica Britanny Bir, diretora da unidade da universidade na Califórnia.

Fonte: http://olhardigital.uol.com.br/noticia/conheca-a-universidade-de-tecnologia-que-nao-tem-professores/63907